quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O último abraço


Os animais - humanos e moscas-da-fruta incluídos -têm dois conjuntos completos de cromossomas. Por esta razão, são tecnicamente conhecidos como diplóides (dois conjuntos em Grego).

Alguns peixes e anfíbios e muitas plantas têm até seis conjuntos de cromossomas, mas nós só temos dois.

Um conjunto vem das nossas mães através do óvulo; o outro vem do es­perma do nosso pai. Assim que os dois conjuntos de cromossomas se encontram no mesmo óvulo fertilizado, dividem-se quando ele se divide e continuam a fazê-lo ao longo da vida, copiando-se e dividindo-se mecanicamente e cum­prindo a sua função de uma forma geral.

Na maioria das células do nosso corpo, as chamadas células somáticas, os cromossomas que vêm da mãe e os cromossomas que vêm do pai, pouco têm a ver uns com os outros. Os seus genes prosseguem o trabalho de passar instruções à célula e esta ouve e obedece. Normalmente, ouve os genes de ambos os progenitores porque geralmente dizem a mesma coisa. Às vezes, no caso de características geneticamente domi­nantes como olhos castanhos, é preferida uma versão das instruções em relação à outra. Em todas as nossas células, as conversas entre os genes dos nossos pais continuam através dos cromossomas que herdámos deles, mesmo quando eles próprios já morreram.
No entanto, numa idade muito precoce em todos nós, muito antes de nas­cermos, algumas células são postas de lado para um objectivo diferente.

São as chamadas células germinativas, para distingui-las das células somáticas que constituem o resto dos nossos corpos. Estas células especiais estão a ser prepa­radas para a tarefa de transmitir os genes à geração seguinte. Urna vez seleccio­nadas, levam uma vida muito diferente das suas companheiras somáticas.
En­quanto as células somáticas irão acabar por morrer, as células germinativas podem saborear a imortalidade. Embora os pormenores do desenvolvimento sejam radicalmente diferentes entre homens e mulheres, a interacção genética crucial dos cromossomas continua a ser a mesma para ambos os sexos.

Após muitas sessões de divisão celular — muito mais nos homens do que nas mulheres - as células germinativas atingem o ponto em que têm de reduzir os seus cromossomas de dois conjuntos para um, por forma a embalá-los em óvulos ou em espermatozóides.

Isto acontece na última divisão celular. No entanto, mesmo antes dessa última divisão, acontece algo de extraordinário. Os dois conjuntos de cromossomas, que até então levaram vidas completamente independentes, juntam-se para um último abraço.

Muito gentilmente, os cromossomas encontram o número oposto e, come­çando pelas pontas, deitam-se delicadamente ao lado uns dos outros até se entrelaçarem. Depois, acontece o milagre. Aparecem rupturas invisíveis no interior dos braços que se tocam.
Muito suavemente, a extremidade cortada de um cromossoma procura e junta-se à ruptura que se abriu no seu parceiro. Enzimas regeneradoras fecham as feridas e os cromossomas começam a libertar-se livres do seu abraço. Quando se separam pela última vez, deixam-se ficar um último momento nos locais em que essas trocas íntimas tiveram lugar até que, por fim, são separados para sempre pela força da vida.

Qual pode ser o objectivo desta estranha ligação?
Mesmo que dure apenas alguns momentos, o seu impacte em todos nós é maior do que se possa imaginar. É a própria essência do sexo. Os cromossomas que emergem do abraço final mudaram a sua identidade e os seus genes. Estes encontros silenciosos alteraram o cromossomas de forma irrevogável. Antes de se tocarem e terem trocado o seu ADN, eram todos idênticos, cópias exactas dos cromossomas herdados de ambos os progenitores.
Depois de terminado o abraço, são agora mosaicos desses cromossomas, parte de um progenitor e parte do outro. Como estas trocas ocorrem aleatoriamente em determinado ponto ao longo dos cromossomas, cada mosaico é ligeiramente diferente de todos os outros.
Os novos cromossomas têm todos um conjunto completo de genes, mas as versões foram misturadas em cada um deles, criando uma variedade quase ilimitada de combinações pron­tas a serem transmitidas à geração seguinte. É esta a razão de sermos todos dife­rentes. Aparte os gémeos idênticos, não há duas pessoas que tenham exacta­mente a mesma composição genética.
Graças ao último abraço dos nossos cromossomas, irmãos, irmãs e gémeos não idênticos nunca herdam a mesma combinação de genes.
Texto adaptado de "A maldição de Adão", de Bryan Sykes. Fórum da Ciência


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